Brasília, 3 de fevereiro de 2026
O som que move o Carnaval brasileiro nasce, em grande parte, de instrumentos de percussão submetidos a condições extremas de uso. Durante horas ininterruptas, surdos, caixas, repiques, tamborins, cuícas, agogôs, pandeiros e chocalhos são tocados com intensidade máxima, muitas vezes expostos ao calor, à umidade e até à chuva. Para que essa engrenagem sonora funcione sem falhas, há um trabalho silencioso de engenharia por trás da festa.

Esses instrumentos podem ser compreendidos como sistemas vibroacústicos, nos quais materiais, forma, tensão e ressonância precisam estar em equilíbrio para garantir qualidade sonora e resistência mecânica. No caso do surdo — base rítmica da bateria —, por exemplo, o desafio é fazer com que o instrumento suporte impactos repetidos por longos períodos sem perder afinação ou integridade estrutural. Entram em cena a engenharia de materiais, na escolha entre madeira, aço ou alumínio, e o desenvolvimento de peles sintéticas capazes de manter estabilidade mesmo sob forte tensão.
A engenharia acústica também desempenha papel central. Afinar uma bateria de escola de samba ou de bloco não é apenas uma questão de ouvido musical, mas um verdadeiro quebra-cabeça de frequências. O grave do surdo não pode “embolar” com os médios do repique, nem competir com os agudos do tamborim. Cada instrumento ocupa uma faixa específica do espectro sonoro, organizada de forma a produzir clareza, potência e identidade rítmica.
Instrumentos como a cuíca evidenciam ainda mais essa complexidade. Seu som característico — muitas vezes descrito como “chorado” — resulta do atrito controlado entre a haste interna e a pele do instrumento, combinando princípios de fricção, ressonância e amplificação acústica. É física pura traduzida em expressão popular.
- Engenharia acústica
Estuda a propagação do som, a ressonância e o comportamento das frequências. É o que permite organizar os instrumentos da bateria para que graves, médios e agudos coexistam sem distorções, garantindo clareza e potência sonora.
- Engenharia de materiais
Orienta a escolha de metais, madeiras e peles sintéticas capazes de suportar alta tensão mecânica, impactos repetidos e variações climáticas, sem comprometer a afinação ou a durabilidade dos instrumentos.
- Engenharia mecânica
Está presente no entendimento das vibrações, do atrito e da transferência de energia — princípios fundamentais para instrumentos como a cuíca, o surdo e o repique.
- Engenharia de produção
Contribui para a padronização, a repetibilidade e a eficiência na fabricação de instrumentos em escala, especialmente para atender grandes escolas de samba e blocos de rua.
- Pesquisa e desenvolvimento
Universidades e centros de pesquisa investigam os instrumentos musicais como sistemas vibroacústicos complexos, ampliando o conhecimento técnico e suas aplicações em diferentes setores da indústria.
A relação entre música e tecnologia, no entanto, não é recente. Desde a Antiguidade, a fabricação de instrumentos depende do domínio de técnicas construtivas e do conhecimento empírico dos materiais disponíveis. O que muda, ao longo do tempo, é o grau de sistematização desse conhecimento — algo que a engenharia moderna passa a oferecer.
No Brasil, essa aproximação entre ciência, tecnologia e música ganhou impulso acadêmico no início dos anos 2000. Em 2003, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) estruturaram um grupo multidisciplinar dedicado à investigação da acústica musical e de suas aplicações tecnológicas. A iniciativa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Centro Virtual de Pesquisa e Desenvolvimento em Música, Artes e Tecnologias (MusArtS), reunindo docentes das áreas de engenharia mecânica, engenharia civil, arquitetura e música.

A proposta era compreender os instrumentos musicais não apenas como objetos artísticos, mas como sistemas complexos, capazes de gerar conhecimento aplicável a setores como a indústria fonográfica, a construção civil e até o setor automotivo. Ao mesmo tempo, os pesquisadores chamavam atenção para um desafio persistente: embora o país detenha vasta tradição musical e artesanal, ainda depende do exterior em relação às tecnologias mais avançadas de projeto e fabricação de instrumentos.
No Carnaval, essa distância entre ciência formal e saber popular é, muitas vezes, encurtada na prática. Mestres de bateria, luthiers e ritmistas acumulam um conhecimento técnico sofisticado, ainda que nem sempre nomeado como engenharia. A festa, assim, se revela também um laboratório a céu aberto, onde física, materiais e som se organizam para transformar cálculo em emoção — e engenharia em samba.
Beatriz Leal Craveiro
Equipe de Comunicação do Confea
Fotos: Beto Eterovick/G1 e Memorial da América Latina
